13 de Novembro de 2020 às 10:39

Cor da pele é fator decisivo para sucesso na carreira profissional

Semana da Consciência Negra

Pelo menos metade da população é negra, mas ela não tem e não consegue ocupar espaços, seja na área acadêmica ou no mercado de trabalho. E essa constatação sempre chamou atenção do bancário do Banco do Brasil, Ermirio Pereira, e reflete a realidade da maioria dos negros no Brasil.

“Quando eu fazia faculdade eu era uma das exceções, quando eu fui gerente de uma empresa, antes de entrar no banco, era o único negro e assim por diante. E no banco mesmo também sou um dos poucos negros. É algo que me incomoda”, comenta o bancário.

Estamos na Semana da Consciência Negra, que traz a reflexão sobre a luta do povo negro. Mesmo representando 56,10% da população do Brasil, as pesquisas que escancaram o racismo no país continuam assustando. Segundo o IBGE, com a pandemia do novo coronavírus, a taxa de desemprego entre brancos e pretos atingiu seu maior nível desde 2012.

No segundo trimestre deste ano, a taxa de desemprego geral ficou em 13,3%, segundo a Pnad Contínua do IBGE. Ao analisar o dado de acordo com a cor da pele, a taxa de desemprego de pretos ficou em primeiro lugar, com 17,8%, de pardos, 15,4%, e de brancos, 10,4%. A porcentagem para cargos de médio e alto escalão também é baixa: negros só são maioria em posições operacionais e técnicas.

Racismo no setor financeiro

Esta é uma pauta que também é constantemente discutida na Campanha Nacional dos Bancários. Porém, a partir dos Relatórios Anuais dos bancos, em 2019, pode-se destacar que os bancos pouco avançaram em relação à promoção de minorias.

O banco Itaú teve um percentual de negros de 1,8% no cargo de direção e 14,6% entre os gestores. Nos cargos comerciais e operacionais estão o maior número de negros: 27,4%, mas o índice total chega apenas a 22,88%. No Bradesco, são mais de 97 mil funcionários de quatro gerações distintas, dos quais apenas 26,4% são negros. Na Caixa, apenas 24,2% dos empregados são negros. No Santander, os negros representam somente 3,3% da diretoria. No Banco do Brasil, nos cargos de chefia, pretos, pardos e indígenas chegam apenas a 21,98%.

De acordo com o censo da categoria bancária, apesar de serem maioria entre a população brasileira, os negros representam apenas 4,8% nos cargos de diretoria das instituições financeiras. O bancário Ermirio Pereira explica que já concorreu a cargos de ascensão dentro do banco, mas sempre fora preterido no momento da entrevista presencial. “Eu fui preterido e não vou dizer que não fui promovido porque sou negro, mas, na verdade, todas as vezes em que concorri para cargos de ascenção e chegava na fase da entrevista eu percebia que nunca tinha outros negros, era apenas eu e outros brancos. Não vou dizer que esse é o motivo, mas essa é a realidade: nós temos muita dificuldade de chegar nessas posições. Basta observar os quadros, está nas estatísticas”, pontua.

“O movimento sindical sempre esteve atento na luta contra as desigualdades de gênero e raça dentro dos bancos. Sabemos que o preconceito é algo estrutural então todos os anos em nossa campanha nacional e reivindicações com os bancos colocamos essa pauta para discussão. É um trabalho árduo e constante, mas acreditamos que é uma luta permanente e que estamos no caminho para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária entre todos”, afirma a presidente do Sindicato dos Bancários de Campo Grande - MS e Região, Neide Rodrigues.

Uma das conquistas dos bancários foi a realização de um Censo da Diversidade para mapear a categoria, que teve três edições, em 2009, 2014 e 2019. Esses censos mostraram a desigualdade nos bancos e é fundamental para entender como está a situação de mulheres, negros e PCDs [Pessoas com Deficiência] no setor, avaliar se houve avanços ou retrocessos e como avançar nas pautas contra o preconceito.

Segundo o Censo da Diversidade Bancária de 2019, 68,8% da categoria bancária eram brancos, 24,3% pardos, 28,2% negros e 2,8% amarelos. No Censo de 2014, os negros tinham remuneração média de 87,3% em relação à dos brancos. 

Racismo estrutural

A ausência de negros e negras em cargos de lideranças nas maiores empresas do país mostra que o racismo atua em diversas dimensões e camadas. Ele estrutura a sociedade a partir da desvalorização e restrição de oportunidades de pessoas negras na ascensão social.

Ainda de acordo com o bancário Ermirio, o racismo sempre esteve presente em sua vida, dentro e fora da agência bancária. “Já teve cliente que se recusou a ser atendido por mim, olhares tortos e piadinhas racistas sempre aconteceram. Minha filha mesmo, aos 8 anos de idade, já sofreu bullying em duas escolas diferentes por causa do cabelo crespo”.

Conscientização

Durante o mês de novembro, em que se celebra a Consciência Negra, o Sindicato dos Bancários de Campo Grande-MS e Região está promovendo ações para a conscientização dos bancários e da sociedade em geral sobre o racismo e, principalmente, sobre como ele afeta o setor bancário.

“As propagandas deveriam ser mais multirraciais e eu acho que deveria haver algum sistema de cotas para cargos de gestão nas empresas, não só nos bancos, porque o negro não consegue chegar nos mesmos lugares que os brancos, pesquisas apontam que as mulheres negras recebem ainda menos que as mulheres brancas. Se a gente observar, na diretoria dos bancos mesmo, eu não me lembro de já ter visto um negro em posição de chefia”, destaca Ermirio.

As pressões motivadas pelo preconceito também estão presentes no ambiente de trabalho nas agências. Em média, apenas cerca de 20% dos trabalhadores nos bancos são negros e não participam de cargos de diretoria, exercendo apenas funções de produção.

“A população negra ainda enfrenta o racismo e o machismo no mercado de trabalho. Por isso, reiteramos que se algum bancário sentir que está sofrendo assédio moral ou racismo dentro do ambiente de trabalho, que procure nosso sindicato para que as medidas legais sejam tomadas. Não podemos permitir que o racismo continue crescendo dentro de instituições que se dizem livres de preconceitos. Continuaremos na luta e no enfrentamento contra medidas que vão contra o caminho da equidade”, finaliza Neide.

Por: Assessoria de Comunicação do SEEBCG-MS

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